Deus
no Céu |
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Deus no céu, Pedro na Terra
Hino do Colégio Pedro II é um retrato da reação centralizadora contra as rebeliões que pipocavam pelo país
“NÓS LEVAMOS NAS MÃOS, o futuro/ De uma grande e brilhante Nação”. O dois primeiros versos do atual hino do Colégio Pedro II, autoria do professor Hamilton Elia (letra) e do maestro Francisco Braga (música), traduzem a responsabilidade atribuída aos alunos de uma das mais antigas e respeitadas instituições de ensino do Brasil. Executados pela primeira vez no centenário do colégio, em 1937, esses versos, bastante ufanistas, diga--se de passagem, não lembram nem de longe a agitação política e os conflitos que puseram em risco a integridade territorial do país, em meio ao árduo processo de construção da “brilhante Nação” brasileira. O Imperial Colégio Pedro II nasceu no turbulento período regencial (1831-1840), no dia 2 de dezembro de 1837, aniversário de D. Pedro. Foi instalado no local do antigo Seminário de São Joaquim, na Rua Larga (atual Marechal Floriano), no centro do Rio. Segundo a historiadora Lúcia Bastos Pereira das Neves, o colégio deveria “atender tanto aos filhos das elites quanto aos destituídos (...), preparando os alunos para o comércio, a indústria e a administração pública”. Nessa época, o Império debutava, mas não tinha motivos para festejar. Rebeliões explodiam em várias províncias, de Norte a Sul: a Farroupilha, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina (1835-1845); a Cabanagem, no Pará (1835-1840); a Sabinada, na Bahia (1837-1838); e a Balaiada, que alvoroçou as províncias do Maranhão e do Piauí (1837-1841). As “rebeliões regenciais” ameaçavam o império e a posição central ocupada pelo Rio de Janeiro. Por outro lado, abriram as cortinas do teatro político para a entrada em cena de um movimento conhecido com Regresso – que defendia a centralização do poder monárquico nos moldes da Constituição outorgada em 1824. Entre os liberais “regressistas”, o senador Bernardo Pereira de Vasconcelos – um dos incentivadores da fundação do Colégio Pedro II – teve destacada atuação parlamentar. No mesmo ano da criação do colégio, o então regente Diogo Antônio Feijó – desgastado pelos conflitos nas províncias e sem o apoio de antigos aliados da ala moderada do Partido Liberal – passou o cargo a Pedro de Araújo Lima (1837-1840), mais tarde visconde e marquês de Olinda. A medida animou os “regressistas”. Foi nessa conjuntura que, em 1938, o recém-fundado Colégio Pedro II inspirou um hino – talvez o primeiro em sua homenagem -, que se encontra na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional. Escrita “por um Bahiano”, a composição é uma espécie de tributo ao futuro imperador (então com apenas 12 anos) e à monarquia, encarnada na figura do herdeiro do trono, que para o autor do hino – possivelmente um regressista – personificava a paz e a salvação do país. O estribilho ilustra essa idéia “Tu nos salva Pedro/ Da pátria esperança/ Íris do Brasil/ Simb`lo de bonança”. Guiado pelas Sagradas Escrituras, o autor do hino chamava a Deus desejando o fim da situação de beligerância que se instalava no país: “Como o vento as secas folhas/ Varre da face da terra/ Varre Senhor, com teu sopro/ Os que a Pedro movem guerra”. Rogava também que a divindade compartilhasse com o jovem monarca seus dons espirituais, evocando ainda a imagem paterna do governante: Teus mais preciosos dons/ Com Pedro liberaliza/ - Pai do povo, mais que rei-/ Seja de Pedro a divisa”. O jovem Pedro chegava a ser divinizado na composição, como se assumisse o papel do Redentor: “A Pedro que veste os nus/ Que dá pão aos que têm fome...” O projeto de unidade do Império e de centralização do poder monárquico aparece em versos nos quais o autor do hino rogava a Deus pela adesão dos súditos do regime e ao seu representante máximo: “Ah! Concede-lhe que veja/ Crescer mais, de dia em dia/ Nos corações brasileiros/ O amor à monarquia”. Na última estrofe, uma referência ao ideal regressista de centralização da autoridade em oposição à desordem e ao esfacelamento do Império: “Cinge-lhe a fronte de louros/ Dias Nestórios lhe dá/ Nossas Leis mantenha e guarde/ Desd´o Prata ao Gran-Pará”. A letra do hino “para o Colégio Pedro II” é o espelho de um momento crucial da História do Brasil, o da áspera luta pela afirmação do estado monárquico e da unidade de um Império que as duras penas se fez Brasil. (Fabiano Vilaça) em Documento Por Dentro da Biblioteca Revista de História da Biblioteca Nacional Número 33 - Junho de 2008 p 90 e 91
Fotos (Encontram-se em Fotos no site)
- O imperador-menino aos 14 anos. Para os “regressistas”, a centralização do poder nas mãos de D. Pedro era a garantia de manutenção da ordem.
- “Para o Colégio de Pedro II” A letra do hino composto “por um bahiano” pode ser entendida à luz das agitações políticas que ameaçavam a integridade do Império.
PARA
O COLLEGIO DE PEDRO II
HYMNO
Ó Tu que ninguém compreende, Tens mais preciosos dons, Tu que ninguém desconhece, Com Pedro liberalisa: Tu, Senhor, ma cujo acêno - Pai do Povo, mais que Rei – Tudo se curva e obedece Seja de Pedro a divisa.
Tu nos salva Pedro, Tu nos salva Pedro, Da Patria esperança, Da Patria esperança, Iris do Brasil, Iris do Brasil Symb´lo de bonança. Symb´lo de bonança
Confunde seu inimigos A Pedro que veste os nús , Frustra-lhe os ímpios projectos Que dá pão aos que têm fome, De sua propria ruina Que educa os miseros orfãos, Sejão elles arqitectos. Accrescenta Imperio e Nome.
Tu nos salva Pedro, Tu nos salva Pedro, Da Patria esperança, Da Patria esperança, Iris do Brasil, Iris do Brasil, Symb´lo de bonança. Symb´lo de bonança.
Como o vento as sêssas folhas, Ah! Concede-lhe que veja, Varre da face da terra, Crescer mais, de dia em dia, Varre, Senhor, com teu sôpro Nos corações brasileiros Os que a Pedro movem guerra. O amor a Monarquia.
Tu nos salva Pedro, Tu nos salva Pedro, Da Patria esperança, Da patria esperança, Iris do Brasil, Iris do Brasil, Symb´lo de bonança. Simb´lo de bonança.
Cinge-lhe a fronte de louros, Dias Nestorios lhe dá, Nossas Leis mantenha e guarde Desd´o Prata ao Gran-Pará.
Tu nos salva Pedro, Da Patria esperança, Iris do Brasil, Symb´lo de bonança.
Por um Bahiano
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